Não foi exatamente uma história de amor embora eu também não possa falar que não foi nada

Da primeira vez que você me beija, eu pergunto se a gente vai conversar também ou não. O dia: centro da cidade, na escadaria que dava até um dos prédios mais famosos, sol das dezesseis na nossa nuca, o cheiro forte da cerveja no seu hálito. Sua expressão de dúvida — a testa franzida, os olhos nos meus, o movimento leve de se afastar um pouco para me encarar melhor — me faz rir um pouquinho. É uma pergunta inocente. Você responde com outra: quer saber se importa, que diferença faz. Eu digo que não, que nenhuma. É realmente uma pergunta sem pegadinha, só pela curiosidade. Só pra saber se eu tenho que pensar em situações cotidianas pra comentar, porque eu sou péssima nisso. Sempre fui. Você enfim disse que não sabe. Eu dou de ombros e você junta nossos lábios.

De repente, você chega um pouco pra trás e, de novo com os olhos fixos nos meus, pegunta: então quer dizer que você gosta de conversar entre beijos? E eu respondo que não era bem aquilo, que só não entendia muito bem o sentido de só beijar, especialmente naquelas condições. À luz do dia, no meio do Rio de Janeiro, com você me levando o mais perto possível de casa depois. Por que não falar? E você diz: eu sou ruim conversando. Não sei puxar assunto. Eu respondo que também não sei. Que você não é pior que eu nesse jogo. E que essa conversa já bastava. Podemos ficar em silêncio de novo. Você ri.

Um tempo depois, preciso de um pouco de ar. Peço, com o rosto ainda muito perto do seu: me conta do seu dia. Você não quer falar ainda. Me beija de novo, bem rápido, e depois respira fundo. O que você quer saber? Qualquer coisa, me conta o que vier primeiro na sua cabeça. Eu estava com medo de você reclamar do gosto do cigarro. Acho engraçado. Eu não reclamaria do gosto, mas dá pra sentir. Dá pra sentir desde que você começou a falar perto demais. É. Eu sei que você odeia. Desculpa. Precisei fumar. Por quê? Sei lá, só precisei. Nervosismo, acho. Ansiedade. Quero saber se foram muitos. Você diz: três, mas não seguidos. Primeiro dois, depois um café, e então mais um. Não vai acontecer de novo, você promete. Digo que tudo bem — a gente nem sabe se aquilo ali vai acontecer de novo. Espero que aconteça. Te beijo.

Então é você quem precisa de ar, e você imita o meu primeiro movimento: com os nossos narizes grudados, os lábios ainda roçando nos meus, me pede pra contar do meu dia. Não tem nada de especial. Não fiz nada demais. Digo isso. Como foi vir até aqui? Cheio. Quente. Confortável. Gosto de fazer esse caminho, gosto de andar entre os prédios velhos e novos do centro. Achei que você tivesse medo do centro. É um medo bom. É um medo de meu Deus, moro na cidade mais linda do mundo. Você não mora exatamente aqui, né. Faço uma careta. Corrijo a frase: meu Deus, moro relativamente perto da cidade mais linda do mundo. Você me beija. Desculpa pelo cigarro. Não tô chateada. Não precisa se desculpar. Eu sempre soube que você fumava. Sim, mas eu ainda bebi cerveja. Cigarro, café e cerveja. São muitos vícios para uma pessoa só, eu penso. Fico quieta. Você só me encara, calado, profundo. Te beijo e você sussurra outro desculpa. Mordo a sua boca. Nós dois rimos. Você não toca mais no assunto.

É fácil ir embora, mas você me leva até a metade do caminho, antes que seja necessário atravessar a enorme poça d’água que nos separa. Não andamos de mãos dadas, mas você me abraça de vez em quando, daquele jeito meio de lado, e durante um pedaço do trajeto faz com que eu precise caminhar mais devagar porque me prende virada para você. Beijo o seu queixo, depois o mordo, e fico olhando o formato do seu rosto de baixo para cima, o modo como seus cílios compridos são de um marrom clarinho. Você não me olha, só continua andando. Sempre reto. Sempre em frente. Às vezes rindo das minhas reclamações infantis por não conseguir enxergar para onde vou, às vezes fazendo uma careta quando estico a língua e molho a sua bochecha.

Na barca, você me envia uma mensagem. Não diz nada. É só uma carinha com um sorriso — pequena, simples. Sei que você provavelmente está no ônibus. Não respondo, mas mantenho um sorriso no rosto e revejo aquela notificação um sem-número de vezes até girar a chave no portão de casa. A frase essa é uma coisa que quero fazer desde que te vi pela primeira vez, dita entre beijos em algum momento mais cedo, reverbera por todo o meu corpo durante horas.

Algum tempo depois, a gente não tem mais tanto contato. Você pergunta se posso sair nos dias que não posso, e vice-versa. Quando nos vemos outra vez, por um instante muito pequeno, você me joga um beijo de longe e eu abro um sorriso simpático. A gente não conversa sobre como deveria ser dali pra frente — as coisas simplesmente acontecem da maneira delas. Não é assim que são os relacionamentos hoje? Eu não queria ficar presa a nada. A família é complicada. Você sabe quantos quilômetros existem entre as duas casas? Eu sou péssima mantendo pessoas na minha vida. Eu nunca respondi a sua mensagem sorrindo — só a soterrei com outras.

Descubro que você está namorando por causa de uma foto que aparece perdida quando volto a usar a única rede social que verdadeiramente detesto. Você parece bem. Deixo um like sincero — que volto a deixar em inúmeras outras fotos depois disso — e, quando me perguntam ou me contam a notícia, ajo naturalmente, como se você tivesse me enviado uma mensagem para contar as novidades. Sinto um vazio estranho crescer, como se a conversa que nunca tivemos fosse agora muito necessária. Não sei dizer se é mágoa, se é tristeza, se é porque me sinto estranhamente sozinha nesse momento da minha vida. Não digo nada. Passa.

Uns meses depois, você me encontra e nós conversamos brevemente. Sua namorada não é mencionada. Como você tem passado? Tudo bem? Sim. Novas conquistas. Viajei. E aquela festa, chegou a ir? Não fui, desisti. E a peça? Fui sim. Maravilhosa. Chorei horrores. Acho que vou pra São Paulo ver Os Miseráveis. É caminhar demais por causa de uma peça, né? Dou de ombros. Cada um sabe a distância que está disposto a andar. Você concorda. A gente conversa mais. Achei que você fosse falar comigo quando me viu semana passada. Não te vi. Onde foi? Aqui. Eu te vi. Passei do teu lado. Não vi mesmo. Podia ter me chamado. Achei que estivesse chateada. Eu? Por quê? Sei lá. Você sempre acha que me chateio pelos motivos menos prováveis do mundo. Você é difícil de ler. Tinha muito tempo que a gente não se via. Fiquei sem jeito. E também, tava atrasado, sabe como é. Digo que sei — porque sei. Você me diz que parou de fumar. Acho que é porque tem muito tempo desde que fiquei verdadeiramente nervoso com alguma coisa. Eu digo que aquela é uma ótima notícia. Depois de mais algum tempo, preciso ir. Sabe como é. Você diz: é, sei. Vou.

Enquanto vou, te envio uma mensagem com uma carinha feliz. Você não responde. Olho pra trás e te vejo sorrir enquanto guarda o celular no bolso. É a última vez que nos falamos.

você diz que eu não sou
transparente o bastante
e que é difícil saber
como eu me sinto
porque eu não falo sobre isso

a gente não fala sobre isso
eu dizia a gente não fala
porque se a gente falar
a palavra nos devora
pedaço por pedaço
até não ter mais nada
até a gente não saber onde
é começo e fim
de corpo e de sentimento
não tem linha não tem curva não tem
marca: continuum de eu e você

e não pode ser assim?
não é que não pode é que
até onde vai essa confusão
de gente e da gente
ninguém sabe traçar uma reta
e chamar de linha de chegada
e dizer aqui a gente
para e descansa e fica
e marca o começo ou o fim
de alguma individualidade
eu (não) quero ser só eu

eu quero ser nós dois
— você berra eu tô aqui
porra — você grita
porque na verdade tá
longe demais pra sussurrar
e acha que eu não vejo e reclama
quando eu fecho essa janela
e passo a chave na porta
e escrevo num papel amassado
muito obrigada pela noite

você diz que eu não sou
transparente o bastante
e eu digo você não deveria
querer ver através dessa
falsa superfície que não mostra
absolutamente nada
você deveria querer ver
entre os pontos de matéria opaca
por onde a luz passa quando são
05:42 e eu ainda não dormi

não posso deixar de ser inte-
-ira e acalmar essa chuva e te
convidar pra entrar em mim
se você não faz o esforço de sair
de casa no meio do temporal.

Não é uma história em que eu, particularmente, tenha visto tanta graça assim, mas acho que isso varia

Não lembro quando a minha primeira crise de ansiedade aconteceu e foi devidamente classificada como o que de fato era – uma crise. Nesses quase vinte anos de idade, tenho contados alguns momentos em que o pânico era tão grande que eu não sabia mais o que fazer comigo mesma, com o meu corpo; os casos corriqueiros, entretanto, se misturam e se amontoam num bolo de medos e inseguranças ao qual não tenho completo acesso, simplesmente porque a minha mente, talvez numa tentativa de autoproteção, bloqueia as memórias. Sei que nunca fui boa lidando com o que é novo – lembro de chorar na escola durante semanas antes de me habituar; de ficar modificando os meus gostos e ficar literalmente pesquisando sobre assuntos diferentes para tentar me enturmar no primeiro grupo que me aceitasse; de escrever sobre não pertencer mesmo quando era “nova demais” para entender o que é que significa, afinal, fazer parte de algo –, só não consigo apontar para uma data no calendário e dizer: foi aqui que começou.

Existe um buraco nas minhas memórias que eu não sei como é que começou a ser criado. Há uma linha turva entre os anos de início e fim – algo entre 2011 e 2013 –, mas os fatos crus e os sentimentos desencadeados por eles são uma massa difícil de penetrar e desenvolver como uma linha reta marcada por datas exatas. Durante a maior parte do tempo, quando tento pensar sobre tudo, é como se eu não estivesse realmente ali, como se todos esses dias somados fossem invenções fracas da minha imaginação. Eles não foram o princípio de nada, de modo que não acho certo tentar justificar todos os meus problemas com os acontecimentos dessa época; eu já era quebrada antes, e continuei quebrada depois. A grande questão com esse período – e o que faz com que haja, afinal, um “antes” e um “depois” – é que ele foi o ponto mais baixo. Então, se eu fosse uma função afim, eu teria o formato de um sorriso, e o ponto que tangencia o eixo X seria o que eu normalmente chamo de “uma fase meio barra pesada” quando preciso citá-la por algum motivo.

Craig Gilner tem um momento parecido – a diferença entre nós dois é que ele sabe quando as crises começam e por qual motivo. Ele é uma função bem mais simples de acompanhar, porque só um dos lados tende ao infinito. Quando passa na escola preparatória para a qual estudou tanto – para a qual passou meses se esforçando –, sua vida atinge o ponto máximo de felicidade, mas é a partir desse instante que tudo desanda. Como se, uma vez atingido esse ápice, não fosse possível sentir nenhum tipo de excitação absoluta e plena nunca mais; dali pra frente, tinha que ser ladeira a baixo, porque esse seria, parece, o único caminho possível. Então começam as crises, que pioram gradualmente até crescerem e engolirem o senso de realidade de Craig. E aí ele um dia decide se matar, só que não se mata; em vez disso, se interna numa clínica psiquiátrica por cinco dias.

Essa é a sinopse mais básica do livro Uma História Meio Que Engraçada (2006), do autor Ned Vizzini (que, por sua vez, cometeu suicídio em 2013 – informação que considero absolutamente relevante diante do tema principal do livro). Durante a maior parte das 292 páginas que estruturam a obra, nós estamos dentro da cabeça do protagonista, um adolescente de quinze anos recém-aceito no ensino médio, entendendo como se estruturou a doença que, mais tarde, levaria até a depressão e a quase-tentativa de morte. O que temos é uma explicação e um questionamento – a rotina de um jovem ao longo dos anos, os seus medos e as suas impressões, e, mais importante, os seus ataques ansiosos e depressivos. E depois a internação.

Não vou ousar dizer que entendo de depressão quando não fui, jamais, clinicamente diagnosticada com a doença. Durante os poucos meses em que frequentei uma psicóloga, evitei falar sobre a época em que estive realmente mal (por achar tudo meio infantil demais) e nós nos limitamos aos meus problemas de ansiedade e autoestima. Não tocamos em pontos muito sensíveis, eu nunca disse que tinha considerado suicídio, nós não quebramos nenhum limite pessoal. Mas eu aprendi a entender o que estava acontecendo, e, conforme o tempo passou e as crises pioraram, e começaram os vômitos e as dores no estômago e a falta de controle e as noites sem dormir, eu sabia o que fazer, sabia que precisava respirar fundo e controlar o meu cérebro, vem vez de deixar que ele me controlasse e fechasse todos os meus meios de fuga de mim. Então não vou falar sobre depressão – mas vou (preciso) falar sobre ansiedade.

Porque o que esse livro causou em mim foi uma montanha-russa que ia da compreensão absoluta pelos sentimentos do Craig – especialmente quando ele começava com as crises, visto que eu, minutos antes de ler os pensamentos dele, tinha seguido pelo menos caminho que ele seguiria depois – até o medo verdadeiro de me identificar demais. Quando a nossa cabeça é uma confusão de verdades, sentimentos e ideias, fica difícil entender como as coisas se conectam e se estruturam e, mais importante, se afetam; até onde um fato é consequência do outro; onde a mudança da felicidade para a tristeza ocorre. E então Craig estava falando sobre tudo aquilo – sobre o que ele sentia que precisava fazer, e sobre tudo o que aconteceria caso ele não desse conta – e eu não podia fazer nada além de concordar e depois me perguntar o quão problemático é não discutir com um personagem adolescente depressivo cinco anos mais novo que eu.

Durante as primeiras páginas do livro, tudo o que ecoava na minha mente era o fato de que Ned Vizzini cometera suicídio. Eu já conhecia a história há muito tempo – bem antes de 2013 –, já havia visto o filme baseado nela, colecionava quotes de uma obra que, até recentemente, nem existia na minha língua, no meu país. Durante a minha fase barra pesada, quando Ned provavelmente também não estava na sua melhor época, a ideia de que alguém de 15 anos tinha se internado e “se curado” me parecia se não poeticamente agradável, pelo menos muito útil. Eu obviamente nunca faria o mesmo, mas eu gostava de pensar que não era a única que de vez em quando não queria acordar no dia seguinte. Quando me referia ao livro, dizia que era a melhor história que eu nunca tinha lido. O impacto era real em mim – e eu nem sabia qual ele seria de verdade quando meus olhos enfim lessem as palavras que o formavam. Então, no dia em que isso finalmente aconteceu, minha mente só conseguia pensar em como alguém que me afetava tanto (e há tanto tempo) poderia não ter suportado o peso que é existir.

Depois que a conexão com o Craig assumiu um nível sério, ficou mais fácil atravessar os capítulos e as crises, porque era como ler a mim mesma. Pesado, é claro, e ainda um pouco desconfortável, mas ao mesmo tempo muito menos solitário do que costuma ser escrever num caderno que nunca abro e releio. Aquelas pessoas não existem, eu sei – pelo menos não como estão ali. Mas eu existo, e eu me vejo nelas, e, às vezes, isso basta para acalmar a sensação de não-pertencimento. Talvez aquele autor não saiba que eu estou aqui, mas, de qualquer forma, ele acabou de escrever sobre mim. Então eu continuei lendo, cada vez mais imersa, insuportavelmente imersa, e aí o livro acabou.

A parte interessante é que não existe realmente um final. Dentro da clínica, Craig é uma versão melhor de si mesmo, uma figura mais completa e disponível e correta. Ele faz o que tem que fazer, sem recaídas, sem o peso do mundo real. E todas as vezes que essa bolha de vida é penetrada por alguma responsabilidade, ele pode bater o telefone ou se esconder no quarto ou jogar cartas e não necessariamente lidar com tudo aquilo. Mas então ele precisa ir embora, porque o mundo continua girando e ele está bem e estável e não pode ficar ali pra sempre, e é uma decisão dele continuar desse jeito. É uma opção, ele diz, se deixar ser afetado negativamente e atingir o fundo do poço e considerar suicídio novamente. Às vezes, me permito pensar, essa pode parecer ser a única opção. Mas segue sendo uma escolha.

Quando ele está prestes a sair, ele pensa em todas essas coisas que ele quer fazer e toda essa vida que existe lá fora e pode ser aproveitada. É como uma recuperação rápida da onda de tristeza absoluta que invade e derruba; é o enxergar o mundo novamente como uma possibilidade de dar certo antes de dar errado. O que inspira, é claro, mas também desespera, porque a verdade – pelo menos para mim (e, então, para ele) – é que os problemas continuam ali. Ninguém está livre da ansiedade. Ninguém está livre da depressão. A gente só aprende a conviver com elas da maneira que pode, acredito, mesmo quando parece difícil demais. A gente faz o que dá pra fazer.

Já faz muito tempo desde o período em que a minha mente bloqueou os sentimentos, mas falar sobre ele e revivê-lo ainda parece impossível, e é claro que as crises ansiosas só pioraram conforme os anos continuaram passando. Eu ainda sou terrível começando qualquer coisa, e ainda choro e travo e tenho crises de pânico e escolho não participar das atividades porque sei que elas talvez me coloquem em uma posição difícil demais. Mas o que essa época me ensinou, e o que eu tento lembrar com certa frequência, e o que o livro do Ned me fez perceber novamente, é que, durante algum tempo, eu estou bem, e existe um resto enorme de vida aqui fora. E quando eu não estiver bem, é nisso que preciso focar: no tanto de coisas que ainda estão aqui.

Eu diria que é fácil perder o controle, mas a verdade é que é difícil. Porque às vezes não sobra nada onde se segurar, nada que valha a pena continuar fazendo. Às vezes tudo o que resta é o travesseiro e o corpo doendo e lágrimas e um gosto amargo na boca, e isso não é um quadro divertido do qual a gente possa partir. É um movimento de força absurdo sair dessa posição e continuar fazendo tudo aquilo que devemos fazer, viver e etc. Quando em crise, quero saber por que não posso simplesmente ficar bem, trabalhar o meu cérebro para dormir e comer e aceitar as situações conforme elas vierem, e não oito meses antes delas virem de fato. Só que o ponto é que não existe um método que me faça parar de ter as crises; tudo o que posso aprender é como lidar com elas. Como Craig ouve do seu médico certa vez: a vida não se cura; se administra. Parece um clichê gasto, e talvez seja, mas é também um ponto de partida – uma certeza vã de que, em algum momento, eu vou conseguir controlar aquilo tudo e começar de novo. E é definitivamente melhor do que nada.

estou pensando em como é fácil culpabilizar todo o meu mapa astral, a posição das estrelas, a pressão atmosférica da terra e esses outros fatores igualmente distantes do meu controle quando sinto qualquer coisa. é claro que eu sou intensa, você já viu essa lua em leão? é claro que eu guardo tudo, o marte em libra na 12 não me permitiria fazer nada mais. é claro que eu sou péssima me comunicando, com todos esses planetas em virgem e tendo nascido onde eu nasci e depois de todas aquelas experiências ruins. etc.

a verdade é que tudo o que existe é exagero e falta. é isso que me ocorre agora — e que já me ocorreu outras vezes também, embora eu não ache que tenha realmente escrito algo sobre esse conflito que é ser demais e ser nada. lendo, ouvindo música, me perguntando se depressão é algo que a gente percebe ou se é algo que simplesmente nos devora, e, nesse caso, se eu estou sendo devorada ou o mero fato de perceber já exclui essa possibilidade; é no tanto de vazio que existe que eu penso. só há vácuo, e, meu deus, quem diria que ele ocupa tanto espaço.

um tempo atrás fiz um teste na internet pra saber quem ou o quê me guiava pela vida e a resposta foi a lua, e um dos itens que justificava essa verdade era o fato de que eu era nostálgica demais. nostálgica e meio triste e carente de atenção — mas também tinham coisas positivas na lista, só não consigo me lembrar delas agora. devo ter anotado em algum lugar, eu sempre anoto. o ponto é que essa palavra — nostálgica — me deixou marcada e talvez até um pouco em choque. às vezes a gente precisa que alguém nos diga o óbvio, certo? ali estava escrito o óbvio, e eu demorei demais para conseguir lidar com aquilo.

deixar as coisas irem embora é um problema grande demais, daí o excesso. só que as coisas sempre vão embora, como é da natureza delas fazer, e então só sobra a falta. são dois sentimentos e duas ações que deveriam se anular, mas não se anulam porque estão em instâncias diferentes. eu vejo toda essa gente existindo e me pergunto se elas sentem essa saudade e esse vazio também. às vezes parece que não. às vezes parece que nem eu sinto, porque é um peso forte demais para carregar e nos mataria a todos.

eu arrasto essas correntes e essas dúvidas e esses medos. e eu fico arrasada com todas as certezas banais da vida humana — a gente morre; não dá pra ler tudo o que você quer ler; alguns sonhos simplesmente não viram realidade; o mundo é injusto; as pessoas são boas e ruins e você não tem como advinhar quem é o que, afinal. tudo — absolutamente tudo — me tira um pouco do ar e às vezes, quando eu não consigo ultrapassar esses pensamentos e focar nas coisas pequenas e fazíveis, é isso que me devora e me mantém na cama por horas. é só o fato de existir. sem necessariamente levar em conta todas as minhas experiências pessoais e todas as coisas que eu gostaria de estar fazendo e não estou.

existe essa voz que ecoa em algum lugar e me puxa de volta dizendo que é tudo uma grande ilusão. que todas essas outras pessoas também estão lutando contra os seus próprios monstros e pra cada coisa que elas fazem, existem milhares de outras coisas que deixaram de fazer. que modelos de pessoas são invenções inúteis da minha mente para me sabotar e que eu não deveria viver a minha vida querendo saber se existe uma versão de mim em algum universo paralelo fazendo tudo aquilo muito melhor, com muito mais certeza. eu não tenho como alcançar essa versão. não tenho como saber se o que eu gostaria ou poderia ter feito teria resultados melhores. mas eu não posso — não consigo, absolutamente — parar de me questionar.

às vezes parece que comigo todos os assuntos são tristes — e isso é um efeito do tanto de nada que existe dentro de mim. quando olho as pessoas, quando ouço suas vozes e suas histórias, ou quando sonho com elas e desisto de dizer isso por mensagem, quando penso em encontros fadados ao fracasso e no tanto de coisas que eu acho que me fariam mais feliz se eu pudesse mudar, tudo parece muito triste e eu penso que é por isso que só existe vazio e memória. é por isso que ninguém fica. mas as pessoas estão aqui, diz a minha voz, e eu reclamo com ela e digo: é mesmo? onde? e nenhuma de nós sabe apontar um lugar.

talvez as pessoas ficassem se eu-. talvez as pessoas ficassem se elas-. é sempre uma frase cortada que se inicia com uma possibilidade e que eu posso preencher de diversas formas, mas nunca teria certeza de nenhuma. -fosse mais divertida e saísse mais; -bebesse com mais frequência e tivesse essas histórias divertidas sobre noites das quais não me lembro muito bem; -fizesse um furo no nariz e usasse roupas menos confortáveis mas mais dentro do meu estilo e da minha proposta de personalidade; -não tivesse medo de beijar estranhos e me abrir com estranhos e me abrir para estranhos; -fosse outra pessoa; -fossem outras pessoas.

não existe nada, é isso que digo pra mim mesma com frequência, e é nisso que acredito também. não existe nada que faça os outros quererem ficar, porque eu sou a pessoa mais dentro da média possível, e se um dia eu achei isso divertido, pfff, é óbvio que eu só estava tentando lidar com o nada de uma forma que não me machucasse. não existe nada. a voz não contesta, não argumenta. talvez existe alguma coisa, no fim das contas — os conselhos, as piadas linguísticas, a paixão por defender coisas banais que a maior parte das pessoas talvez não se preocupe em pensar a respeito. mas não existe nada. é só.

posso culpar o universo e suas forças e suas verdades pela construção do meu eu, mas a verdade é que não é culpa de ninguém. nem minha, acho. as coisas são como são, e a minha forma de lidar com elas é como é, e eu talvez esteja infeliz com tudo e precise lidar com uma intensidade e um sentimento de falta que me devora, mas ninguém nunca disse que a maneira como o mundo gira é algo que se possa alterar. só existe nada, e ele me preenche de maneira assustadora, e às vezes quando eu olho a sua foto eu desejo que exista algo mais que te faça querer permanecer mas a verdade é que a minha mente construiu um padrão de pessoas com as quais você se relacionaria e eu não estou incluida nele. você se relaciona comigo, mas é diferente.

é temporário, e eventualmente não vai ser nada de novo. sucumbo.

Advinha quem veio falar de literatura?

Todo ano eu faço uma lista de leituras e, abusando da cara de pau que me foi concedida, todo ano eu ignoro essa lista. Às vezes é por pura preguiça de manter o padrão que eu julguei um dia ser importante, às vezes é porque não consegui mesmo, às vezes acontecem coisas e outros livros se mostraram mais relevantes. Ainda assim, todo comecinho de ano é a mesma brincadeira, de forma que aqui estou eu, já em Fevereiro, tentando colocar em ordem tudo o que eu me propus a ler em 2017, num ato desesperado de acreditar que, uma vez escritas as metas, elas se cumprirão sozinhas. Ha-ha.

Dessa vez, eu estou participando de três desafios de leitura: o Ler Além, criado pelo combo maravilhoso Pólen + Valkírias + Nem Um Pouco Épico; o Reading Challenge da PopSugar, que eu tento fazer todos os anos; e um criado por mim mesma, que é basicamente uma lista de livros recomendados por outras pessoas e o único que vai contar com títulos já selecionados porque, afinal, não fui eu quem os escolhi.

O que acontece é que eu percebi que optar sozinha por livros sempre acabava sendo problemático, e eu costumava comprar muito mais coisa do que lia de fato só pelo prazer e pela animação de comprar. Minha estante está cheia de coisas que eu quero mandar embora, e, dessa forma, achei desnecessário montar mais uma lista cheia de títulos que eu já sei que gostaria muito de ler, mas nunca sento e leio de fato. Me ocorreu, portanto, que talvez fosse uma ideia legal deixar isso na mão de quem também gosta do assunto e já sabe que o material recomendado é de qualidade.

Por conta disso, pedi, ainda em Janeiro, que as pessoas me recomendassem livros. Mas não qualquer coisa que viesse à mente: só os melhores livros que elas já leram, os que realmente mudaram suas vidas, as obras que as fizeram melhores ou que as impactaram de alguma forma. E elas me disseram. Teve muito mais gente falando do que eu achei que fosse acontecer, e, no final das contas, eu terminei com um total de quase 30 títulos. São eles (em ordem de recomendação):

  1. A máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe;
  2. Factótum, Charles Bukowski;
  3. O iluminado, Stephen King;
  4. O hobbit, J.R.R. Tolkien;
  5. Elogio da loucura, Erasmo de Roterdã;
  6. As doze cores do vermelho, Helena Parente Cunha;
  7. Pollyanna, Eleanor H. Porter;
  8. K., Bernardo Kucinski;
  9. Ensaio sobre a cegueira, José Saramago;
  10. A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Alexievich;
  11. Só garotos, Patti Smith;
  12. Trilogia Legend, Marie Lu;
  13. A garota no trem, Paula Hawkins;
  14. Por lugares incríveis, Jennifer Niven;
  15. Eu te darei o sol, Jandy Nelson;
  16. Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes;
  17. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector;
  18. Doze contos peregrinos, Gabriel García Márquez;
  19. A cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom;
  20. Minha querida Sputnick, Haruki Murakami;
  21. Teoria de tudo, Jane Hawking;
  22. O conto da ilha desconhecida, José Saramago;
  23. As cidades invisíveis, Italo Calvino;
  24. Perto do coração selvagem, Clarice Lispector;
  25. Bonsai, Alejandro Zambra;
  26. Um amor feliz, Wislawa Szymborska;

Esses são os títulos que eu quero muito ler, e grande parte deles eu até tenho. Achei bastante variado, com assuntos, autores e propostas bem diferentes, e fiquei satisfeita com esse pequeno universo que tenho em mãos. Vou tentar, é claro, adaptá-los aos desafios literários que pretendo concluir, mas, no mais, eles são a minha prioridade. Vamos ver o que sai daí.

Além disso, existem alguns títulos que eu, sozinha, sei que preciso conseguir ler ainda esse ano. Um exemplo é a série do Harry Potter, que ainda não terminei, e Uma história meio engraçada, do Ned Vizzini, meu livro favorito que eu nunca li. Quero conseguir ter mais contato com poesia, que aprendi a amar de verdade no ano passado, e com HQs, uma paixão que lamento possuir porque muito caros os livros que eu leio em dois dias. Mas enfim, essas metas são mais abrangentes, menos difíceis e acabam sendo cumpridas com tanta naturalidade que eu nem sinto que são realmente desafios.

Também quero falar mais sobre esses livros todos, ou sobre o que quer que eu esteja lendo, porque às vezes parece que os pensamentos ficam acumulados demais e se perdem na minha cabeça. Dessa forma, talvez surjam pelo blog alguns posts mais literários, resenhas ou comentários curtinhos sobre o assunto. No fim das contas, ler é uma parte muito grande de mim, e excluir as minhas opiniões da internet tem me parecido, cada vez mais, um erro.

Espero conseguir levar a sério tudo isso que me dispus a fazer. Espero também que a vida universitária não puxe o meu pé e me arraste um pouco para longe da minha estante. No mais, estou otimista, ansiosa e animada com os títulos. Apesar da demora pra falar sobre tudo isso, finalmente sinto, só agora, que 2017 começou. Ainda bem.

Quebra

Às vezes eu lembro do seu último convite e tenho vontade de mandar uma mensagem, agora, tanto tempo depois, dizendo que sim, preciso relaxar, vamos fazer alguma coisa? Porque o estresse da faculdade está sempre aqui, mesmo nas férias, e eu preciso mesmo me concentrar em outras atividades. Sei bem quais foram os motivos que me levaram a não responder nada disso da primeira vez, e, no geral, não me arrependo deles, mas não consigo evitar pensar que foi mais falta de habilidade do que qualquer outra coisa. Não que importe. Só estou tentando entender.

Parece idiota ainda me perguntar se você chegou a ficar, em algum momento, meio magoado com a forma como eu lidei com a situação toda. Ou com a forma como eu não lidei com a situação toda. E embora escrever aqui seja o equivalente a falar sozinha, porque você nem sabe que esse espaço existe, eu sinto como se devesse um pedido de desculpas. Te mandaria uma mensagem se o seu número ainda estivesse aqui e se o puro ato de te procurar depois de tanto silêncio não fosse, sozinho, egoísta e sem sentido. De toda forma, me desculpa. Não era a intenção sumir de repente.

Tento lembrar de coisas que eu sei que você gostaria e não consigo. Só filmes distópicos e Harry Potter, é disso que eu lembro. De você rindo e falando “meu deus, eu já tinha seis anos quando você nasceu” enquanto a gente comentava que A Pedra Filosofal tinha saído em 1997 e você tinha virado fã da série pouco tempo mais tarde. Eu sei que você me beijou depois disso, mas eu não lembro do gosto também. Lembro da pressão das suas mãos, mas é só.

Tenho um amigo que brinca com o fato de eu não conseguir ficar perto dele na escada rolante porque a proximidade me deixa sem jeito. É culpa sua, isso. Porque não consigo não lembrar de você, tão ou mais perto, e a memória me deixa tímida. Eu não era fã de demonstrações públicas de afeto até você me girar no meio do shopping pra me beijar logo depois. As coisas se transformam muito rápido, né? Chega a ser inacreditável. Depois disso, ninguém mais me girou em lugar nenhum, o que é, ao mesmo tempo, ok e meio triste. Eu girando não sou a coisa mais bonita do mundo, mas não é a imagem que conta.

Quando eu lembro do silêncio injusto, eu quero te escrever pra dizer que não é que eu seja má pessoa, ou que eu não tenha gostado de te conhecer, mas lidar com duas coisas que mexem com a minha ansiedade ao mesmo tempo é impossível, e eu sou ruim demais com a parte do sentimento, então foquei só na faculdade. Acho que pelo menos isso eu consegui deixar claro. Você não é a primeira pessoa que eu expulso sem querer. Ou nem tão sem querer. É que eu sou realmente péssima só dizendo que preciso de um tempo, ou que não queria precisar de um tempo, ou que talvez a minha cabeça esteja meio confusa, ou sei lá. Faz pouco tempo que aprendi a dizer qualquer outra coisa que não seja “desculpa”, e ainda assim olha só o conteúdo básico desse texto.

Escrever é a minha forma de tirar as coisas da cabeça. Eu sei que você não vai ler. Eu sei que já tem um tempo considerável. Eu estou lutando contra o impulso de abrir o seu Facebook pra saber qualquer outra coisa, mas é óbvia a certeza de que a vida segue, porque, afinal de contas, foi tudo muito rápido. Espero que tenha ficado tudo bem com seu TCC e a sua irmã e as coisas gerais da sua família, e que você esteja feliz, essas coisas. Espero de verdade. Acordei pensando nisso, em você e na situação toda, e lembrei que nunca falei sobre isso, então agora estou falando. Enfim. Desculpa. E obrigada pelos convites. Até qualquer dia desses pela Gávea, por Petrópolis, por aí.

215 degraus e algumas ladeiras

Toda data é uma fotografia, foi isso que eu aprendi a pensar. Todo dia que a gente lembra carrega junto uma imagem, uma cena congelada que ficou presa no fundo da nossa mente, intacta, talvez eterna. Na ausência de câmeras, a gente fotografa com o calendário.

Em agosto de 2014, eu tive um fim de semana que, por vários motivos, ficou marcado como um dos melhores da minha vida. Talvez seja ingênuo acreditar nisso, mas foi assim que pareceu na época, foi assim que eu o vi durante muito tempo. Ele envolveu dez horas de aula e uma festa de aniversário no sábado e quatro horas de sono e uma volta pelo Rio de Janeiro no domingo, com direito a trilha e a forró. É disso que eu lembro.

Foi a primeira vez que eu visitei o Parque das Ruínas (Santa Teresa, Rio de Janeiro). É uma construção feita de tijolos raspados, vidro e vigas de metal, e ela tem a vista pra toda cidade do Rio, um monte de plantas e jeitos bonitos de capturar a luz. E eu não sei se foi o conjunto da obra — todo o fim de semana, a subida da escadaria até ali, as companhias, as conversas que eu estava tendo — ou se era só o lugar mesmo, mas a felicidade que eu senti quando cheguei no último andar e olhei em volta ainda é, até hoje, indescritível. Queria ficar lá pra sempre.

No dia 28 desse mês, voltei ao mesmo lugar, em condições absolutamente diferentes, com menos perrengues e menos pessoas. Olhei para as mesmas vistas, dessa vez cercada por gente que me inspira e que eu amo, e subi a mesma escada até o mesmo último andar, pra tirar a mesma foto que tirei da primeira vez. E a felicidade estava lá de novo, dentro de mim, pulsando, correndo por todas as veias. O lugar mais lindo do Rio, etc. Talvez nem seja, mas sempre que eu vou lá, é.

Passar a energia que mora na gente é uma missão quase impossível, de forma que não dava pra dizer pra todo mundo que estava comigo como aquele lugar era importante e maravilhoso. Talvez nunca dê pra explicar pra ninguém os sentimentos que crescem dentro de mim e inevitavelmente me sufocam. Mas eu tentei. Tentei dizer como tudo era lindo, como a energia era gostosa, como aquela mistura de materiais e a história daquele lugar eram uma obra de arte e a gente nem precisava da galeria ou das poesias lá fora. Mas aí teve uma hora que eu não disse nada mais, que era eu sentada numa janela feita de tijolos olhando as pessoas em volta e pensando que aquilo era bonito demais e que eu queria poder ficar ali pra sempre. Não pude. Não posso.

Tem coisas que a gente não compartilha nunca. Isso é algo que eu penso com frequência, na verdade — que existem essas músicas e esses medos e esses segredos que não dá pra dividir com todo mundo. Eu nunca tinha percebido que esse lugar é o lugar que eu também não quero dividir com qualquer um — e, até agora, isso não aconteceu mesmo. É engraçado como a gente toma pra si ambientes e construções e criações tão públicos, mas é também verdadeira demais a certeza de que estar ali, pra mim, é íntimo e bonito demais. É ver um pedaço muito grande de mim. É fazer com que eu seja tão transparente quanto o resto das paredes que me cercam. E isso me assusta, mas, de uma forma estranha, também me encanta.