Passageiro #4

substantivo masculino: pessoa que usa um meio de transporte.
adjetivo: que passa; transitório; efêmero.

são quase oito e o ônibus demorou mais que o normal pra passar. entre os dois bancos próximos ao motorista e o vidro que separa o corredor da catraca, encosto as costas e encaro a janela, o céu escuro, as luzes dos prédios e as árvores amontoadas da praça da bandeira logo ali na frente. a bolsa pesa, mas recuso ajuda quando a senhora sentada à minha frente se oferece para segurá-la — ela carrega três sacolas nas pernas finas e provavelmente está bem mais casada que eu.

você entra no ponto antes do ponto errado, onde tudo é escuro e assustador. duas mulheres na sua frente, um cara atrás, todo mundo sobe as escadas de cabeça abaixada e passa o cartão no leitor digital. vejo seus cachos de cor indefinida — castanhos na calçada, meio loiros sobre a luz artificial do ônibus — e os seus headphones brancos e a sua camisa cinza. você olha pra frente. atravessa as pessoas amontoadas com a mochila na mão. para num canto, segura o ferro amarelado no alto. reparo nos seus dedos, mas a posição e todas as outras cabeças não me permitem enxergar nada direito. volto para a minha janela.

quando saímos da ponte e um grupo enorme de pessoas desce no primeiro ponto, procuro você com o olhar como quem na verdade só quer encontrar um assento vago. o ônibus continua cheio e você continua parado ali: jeans azul, all star, cachos. mãos firmes. a mochila entre as pernas. um relógio com a pulseira marrom. o braço estendido deixando evidente o músculo. você olha, mas desvia. não escuto os fones de ouvido.

consigo sentar pouco tempo depois e paro de tentar te encontrar pelo reflexo do vidro. você também senta. me concentro da música, exatamente como você faz — lembro do seu balançar de cabeça enquanto ainda estávamos de pé, perdidos entre tanta gente. esqueço. meu ponto chega. antes de descer, uma última olhada em volta. você está dormindo, abraçado com a mochila, ainda de fones. vejo a luz nos teus cachos e imagino como seria enfiar os dedos naquela bagunça. já são nove horas quando piso na calçada.

Alguns dias são melhores que outros.

Às vezes eu acordo e faz frio, mas o frio agradável do outono que me permite usar casacos bonitos e coturno sem congelar e bater queixo, e eu consigo uma carona até o centro da cidade, e o ônibus que eu preciso pegar passa na hora e ainda vem vazio, e as pessoas falam “bom dia” e pedem licença, e a bateria do telefone dura mesmo com a internet ligada e uma música tocando, e a vista é bonita, e eu consigo ler cinquenta páginas em meia viagem de ônibus, e eu encontro uma posição confortável pra tirar um cochilo enquanto não chega a hora de descer, e eu acordo pertinho do ponto, mas não nele, então posso levantar na hora certa, e as pessoas são simpáticas novamente, e a aula ainda não começou.

Às vezes eu consigo fazer comentários pertinentes e arrancar sorrisos de uma professora que eu quero desesperadamente impressionar, e minhas amigas comentam baixinho que eu já devia ter me enfiado nesse caminho há mais tempo, e todo mundo ri de uma piada junto, e a gente é liberado mais cedo, e eu consigo ler mais trinta páginas na aula seguinte, e o almoço do bandejão é gostoso, e aquela pessoa pede casualmente pra almoçar comigo, e depois pede por um café, e depois pede só por companhia, e todas as coisas parecem ter desencaixado e criado um jeito novo de encaixar.

Às vezes eu atendo duas pessoas numa monitoria que se sobrepõe, e dou uma aula divertida, e elas riem e dizem que conseguiram entender o que antes era confuso, e eu consigo sair um pouquinho antes do horário de sempre, e ligações acontecem, e eu choro de rir de pé no ônibus sem me preocupar em segurar minha mochila porque alguém já se ofereceu pra isso, e não existe trânsito, e não existe gente, e não demoro nada pra chegar em casa, e a comida é boa, e todo mundo está de bom humor, e eu durmo – mal, porque a cabeça não para de reviver o dia.

Às vezes eu consigo finalmente resolver um problema que há meses não conseguia, e vejo gente que eu gosto de ver, e assisto aulas que gosto de assistir, e falo com pessoas que gosto de falar, e rio pensando em arraiás e piadas que só fazem sentido naquele contexto e depois nunca mais, e encontro um amigo que não via há anos, e depois uma série de outros amigos, e almoço com a pessoa que eu queria almoçar, e é o lugar mais agradável do mundo, e só existe eu e aquela pessoa muito embora exista muito mais gente, e depois a gente dá tchau porque precisa.

Às vezes eu converso com gente que eu amo com todo o meu coração mas cujo contato é menor, muito menor, desde que nos afastamos no ensino médio, e às vezes essa conversa dura horas, e eu rio e choro e descubro novidades e sano dúvidas e sinto só paz e leveza e calmaria, e a gente pode ser a gente de novo, e a gente brinca com as coisas de sempre ao mesmo tempo que fala sério, e isso é tudo que eu conheço por felicidade, e eu como pão de queijo e eu encontro mais amigos antes de ir embora e eu consigo companhia pra casa, e tudo é bom. Tudo é bom.

Alguns dias são melhores que outros. Tipo ontem/hoje.

Passageiro #3

(play.)

substantivo masculino: pessoa que usa um meio de transporte.
adjetivo: que passa; transitório; efêmero.

você me encontra meio de surpresa, meio por querer, depois daquela minha mensagem descrente perguntando se a sua aula já tinha acabado porque eu estava indo embora e queria companhia. a gente se abraça — daquele jeito meu e seu, um se enfiando no cabelo do outro, sentindo o cheiro, apertando as costas — e conversa e espera junto um ônibus que vem muito rápido.

não existe lugar vago além daquele banco amarelo que indica assentos preferenciais, então te mando sentar e fico de pé ao seu lado, olhando, as minhas bolsas no teu colo, todos aqueles livros que você vê por alto e não abre, todos aqueles diálogos que não significam nada. conversamos. é rápido e é superficial, sobre a sua e a minha vidas amorosas, sobre como tem sido tudo mais difícil, sobre o fim inevitável de todos os rolos que tem potencial para virarem coisas maiores e mais sérias e isso é exatamente o que nem eu enm você queremos.

então você dorme, e é no seu dormir inevitável que eu me vejo perdida dentro do seu rosto, da mesma forma que ficava tanto tempo atrás mesmo quando você não estava dormindo. eu olho o formato da sua boca e o modo como você aperta os olhos e mexe os dedos de leve, e como o sacudir do ônibus é uma forma de te aprofundar ainda mais nesse sonho que nunca sai do seu subconsciente. vejo teus cílios compridos e escuros e a tua sobrancelha grossa e despenteada e o modo como você recosta no banco abraçado naquela confusão de mochilas dentro de um transporte lotado às seis da tarde como se toda a cidade fosse uma calmaria só.

eu lembro de como era ser apaixonada por você enquando mexo no teu cabelo de fios muito grossos e muito embolados e eu sei a sensação que me toma quando você abre os olhos devagar cheio de manha e dá aquele sorriso que só você sabe dar, coça o rosto, pede desculpa por ter pego no sono. digo que tudo bem, imaginei que você fosse dormir, você sempre dorme, e você ri e diz que não é sua culpa, é a hora e a vida acadêmica, tudo vira uma bagunça acumulada que está te matando aos poucos. eu entendo. não falo nada. só continuo mexendo no teu cabelo, e você dorme de novo alguns minutos depois.

te acordo com um carinho no braço mas o meu impulso era só abaixar e beijar a ponta do seu nariz arrebitado. pergunto se você vai descer comigo, você diz que sim, sempre, você sempre vai onde eu for, e eu sei que é uma brincadeira mas me ocorre rapidamente, num lapso, num piscar, que também é verdade porque a gente tem se seguido há seis anos já. esse tempo todo e a gente ainda sem final concreto, só aquele tchau cinco anos atrás, e todos os tchaus depois dele, que sempre voltavam a ser olás. a gente desce e continua falando trivialidades e o outro ônibus vem e a gente sobe. é estranho te ter como vizinho.

você brinca com o meu cabelo, joga ele de um lado para o outro, fica tão mais bonito quando você faz assim, para de usar ele repartido. eu paro. sempre que tô contigo o impulso de trocar o hábito e deixar a cabeça um pouquinho inclinada para a direita é tão forte que não consigo resistir. você sempre abre um sorrisinho quando percebe que o meu cabelo tá jogado, e eu acho seu sorrisinho bonito demais. a gente brinca de dança das cadeiras e é minha vez de sentar, a gente se abraça e se implica e todo mundo que olha talvez dissesse que a gente é um casal, porque talvez a gente seja, talvez nunca tenha mesmo deixado de ser, apesar de. e então de repente eu fico pensando nisso enquanto você tá de pé do meu lado, olhando sério pro meu rosto, e eu só sinto dúvida e saudade.

meu ponto chega, a gente se despede com um beijo em cada bochecha, aquele abraço nosso porém mais rápido, um aperto forte na minha mão. eu desço, não te vejo pela janela, não te mando mensagem quando chego, não recebo nada também. é sempre meio assim, um silêncio estranho, uma falta do que dizer, um queria te ver de novo mas talvez não dê por tanta coisa. chego em casa pensando em você, passo duas semanas pensando em você, te mando outra mensagem perguntando se a gente pode ir embora junto de novo, não pode. você tem prova às 17h, eu saí meia hora antes disso.

semana que vem nesse horário sou só seu. eu entro no ônibus segurando essa promessa.

Comentários avulsos sobre a vida e suas questões #3

É engraçado como acontece a quebra e como a gente se coloca no mundo de um jeito diferente DO. NADA.

A minha vida acadêmica tem sido essa zona mental absoluta de querer um rumo mas ao mesmo tempo não saber pra onde, como ou quando começar a ir. Não saber nem mesmo o que é que está acontecendo na maior parte do tempo. Olhar em volta e perceber que tudo é dúvida.

(Enquanto escrevo a professora fala: “Não tenha dúvida.”) (O poema na parede branca ordena: respire.)

Eu não conhecer os caminhos é uma forma de me manter parada — tudo é duvida, e também escuridão. Querer respostas é injusto quando não se faz nenhuma pergunta. Oi, você pode me ajudar? Oi, será que você pode ser uma lanterna durante alguns segundos?

Amanda Palmer vibra em mim por motivos diferentes dos que eu acreditei que a fariam nem mesmo vibrar, mas ecoar eternamente no absimo sem fundo da alma. O medo paralisante que eu sinto em perguntar. O medo maior ainda que eu sinto de receber uma resposta — ainda que ela seja positiva. Silêncio e dúvida.

Pneumotórax: “Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

A gente tem que saber o que quer fazr e pra saber a gente precisa fazer uns testes antes. Não é esse tema. Não é esse assunto. Não é esse formato. Reprovação.

O mesmo com as pessoas. E aí a gente pede pra testar. Usa palavras. Não se esconde. E se identifica — às vezes devagar, às vezes num tombo. E diz: foi. Aprovação.

Não foi exatamente uma história de amor embora eu também não possa falar que não foi nada

Da primeira vez que você me beija, eu pergunto se a gente vai conversar também ou não. O dia: centro da cidade, na escadaria que dava até um dos prédios mais famosos, sol das dezesseis na nossa nuca, o cheiro forte da cerveja no seu hálito. Sua expressão de dúvida — a testa franzida, os olhos nos meus, o movimento leve de se afastar um pouco para me encarar melhor — me faz rir um pouquinho. É uma pergunta inocente. Você responde com outra: quer saber se importa, que diferença faz. Eu digo que não, que nenhuma. É realmente uma pergunta sem pegadinha, só pela curiosidade. Só pra saber se eu tenho que pensar em situações cotidianas pra comentar, porque eu sou péssima nisso. Sempre fui. Você enfim disse que não sabe. Eu dou de ombros e você junta nossos lábios.

De repente, você chega um pouco pra trás e, de novo com os olhos fixos nos meus, pegunta: então quer dizer que você gosta de conversar entre beijos? E eu respondo que não era bem aquilo, que só não entendia muito bem o sentido de só beijar, especialmente naquelas condições. À luz do dia, no meio do Rio de Janeiro, com você me levando o mais perto possível de casa depois. Por que não falar? E você diz: eu sou ruim conversando. Não sei puxar assunto. Eu respondo que também não sei. Que você não é pior que eu nesse jogo. E que essa conversa já bastava. Podemos ficar em silêncio de novo. Você ri.

Um tempo depois, preciso de um pouco de ar. Peço, com o rosto ainda muito perto do seu: me conta do seu dia. Você não quer falar ainda. Me beija de novo, bem rápido, e depois respira fundo. O que você quer saber? Qualquer coisa, me conta o que vier primeiro na sua cabeça. Eu estava com medo de você reclamar do gosto do cigarro. Acho engraçado. Eu não reclamaria do gosto, mas dá pra sentir. Dá pra sentir desde que você começou a falar perto demais. É. Eu sei que você odeia. Desculpa. Precisei fumar. Por quê? Sei lá, só precisei. Nervosismo, acho. Ansiedade. Quero saber se foram muitos. Você diz: três, mas não seguidos. Primeiro dois, depois um café, e então mais um. Não vai acontecer de novo, você promete. Digo que tudo bem — a gente nem sabe se aquilo ali vai acontecer de novo. Espero que aconteça. Te beijo.

Então é você quem precisa de ar, e você imita o meu primeiro movimento: com os nossos narizes grudados, os lábios ainda roçando nos meus, me pede pra contar do meu dia. Não tem nada de especial. Não fiz nada demais. Digo isso. Como foi vir até aqui? Cheio. Quente. Confortável. Gosto de fazer esse caminho, gosto de andar entre os prédios velhos e novos do centro. Achei que você tivesse medo do centro. É um medo bom. É um medo de meu Deus, moro na cidade mais linda do mundo. Você não mora exatamente aqui, né. Faço uma careta. Corrijo a frase: meu Deus, moro relativamente perto da cidade mais linda do mundo. Você me beija. Desculpa pelo cigarro. Não tô chateada. Não precisa se desculpar. Eu sempre soube que você fumava. Sim, mas eu ainda bebi cerveja. Cigarro, café e cerveja. São muitos vícios para uma pessoa só, eu penso. Fico quieta. Você só me encara, calado, profundo. Te beijo e você sussurra outro desculpa. Mordo a sua boca. Nós dois rimos. Você não toca mais no assunto.

É fácil ir embora, mas você me leva até a metade do caminho, antes que seja necessário atravessar a enorme poça d’água que nos separa. Não andamos de mãos dadas, mas você me abraça de vez em quando, daquele jeito meio de lado, e durante um pedaço do trajeto faz com que eu precise caminhar mais devagar porque me prende virada para você. Beijo o seu queixo, depois o mordo, e fico olhando o formato do seu rosto de baixo para cima, o modo como seus cílios compridos são de um marrom clarinho. Você não me olha, só continua andando. Sempre reto. Sempre em frente. Às vezes rindo das minhas reclamações infantis por não conseguir enxergar para onde vou, às vezes fazendo uma careta quando estico a língua e molho a sua bochecha.

Na barca, você me envia uma mensagem. Não diz nada. É só uma carinha com um sorriso — pequena, simples. Sei que você provavelmente está no ônibus. Não respondo, mas mantenho um sorriso no rosto e revejo aquela notificação um sem-número de vezes até girar a chave no portão de casa. A frase essa é uma coisa que quero fazer desde que te vi pela primeira vez, dita entre beijos em algum momento mais cedo, reverbera por todo o meu corpo durante horas.

Algum tempo depois, a gente não tem mais tanto contato. Você pergunta se posso sair nos dias que não posso, e vice-versa. Quando nos vemos outra vez, por um instante muito pequeno, você me joga um beijo de longe e eu abro um sorriso simpático. A gente não conversa sobre como deveria ser dali pra frente — as coisas simplesmente acontecem da maneira delas. Não é assim que são os relacionamentos hoje? Eu não queria ficar presa a nada. A família é complicada. Você sabe quantos quilômetros existem entre as duas casas? Eu sou péssima mantendo pessoas na minha vida. Eu nunca respondi a sua mensagem sorrindo — só a soterrei com outras.

Descubro que você está namorando por causa de uma foto que aparece perdida quando volto a usar a única rede social que verdadeiramente detesto. Você parece bem. Deixo um like sincero — que volto a deixar em inúmeras outras fotos depois disso — e, quando me perguntam ou me contam a notícia, ajo naturalmente, como se você tivesse me enviado uma mensagem para contar as novidades. Sinto um vazio estranho crescer, como se a conversa que nunca tivemos fosse agora muito necessária. Não sei dizer se é mágoa, se é tristeza, se é porque me sinto estranhamente sozinha nesse momento da minha vida. Não digo nada. Passa.

Uns meses depois, você me encontra e nós conversamos brevemente. Sua namorada não é mencionada. Como você tem passado? Tudo bem? Sim. Novas conquistas. Viajei. E aquela festa, chegou a ir? Não fui, desisti. E a peça? Fui sim. Maravilhosa. Chorei horrores. Acho que vou pra São Paulo ver Os Miseráveis. É caminhar demais por causa de uma peça, né? Dou de ombros. Cada um sabe a distância que está disposto a andar. Você concorda. A gente conversa mais. Achei que você fosse falar comigo quando me viu semana passada. Não te vi. Onde foi? Aqui. Eu te vi. Passei do teu lado. Não vi mesmo. Podia ter me chamado. Achei que estivesse chateada. Eu? Por quê? Sei lá. Você sempre acha que me chateio pelos motivos menos prováveis do mundo. Você é difícil de ler. Tinha muito tempo que a gente não se via. Fiquei sem jeito. E também, tava atrasado, sabe como é. Digo que sei — porque sei. Você me diz que parou de fumar. Acho que é porque tem muito tempo desde que fiquei verdadeiramente nervoso com alguma coisa. Eu digo que aquela é uma ótima notícia. Depois de mais algum tempo, preciso ir. Sabe como é. Você diz: é, sei. Vou.

Enquanto vou, te envio uma mensagem com uma carinha feliz. Você não responde. Olho pra trás e te vejo sorrir enquanto guarda o celular no bolso. É a última vez que nos falamos.

você diz que eu não sou
transparente o bastante
e que é difícil saber
como eu me sinto
porque eu não falo sobre isso

a gente não fala sobre isso
eu dizia a gente não fala
porque se a gente falar
a palavra nos devora
pedaço por pedaço
até não ter mais nada
até a gente não saber onde
é começo e fim
de corpo e de sentimento
não tem linha não tem curva não tem
marca: continuum de eu e você

e não pode ser assim?
não é que não pode é que
até onde vai essa confusão
de gente e da gente
ninguém sabe traçar uma reta
e chamar de linha de chegada
e dizer aqui a gente
para e descansa e fica
e marca o começo ou o fim
de alguma individualidade
eu (não) quero ser só eu

eu quero ser nós dois
— você berra eu tô aqui
porra — você grita
porque na verdade tá
longe demais pra sussurrar
e acha que eu não vejo e reclama
quando eu fecho essa janela
e passo a chave na porta
e escrevo num papel amassado
muito obrigada pela noite

você diz que eu não sou
transparente o bastante
e eu digo você não deveria
querer ver através dessa
falsa superfície que não mostra
absolutamente nada
você deveria querer ver
entre os pontos de matéria opaca
por onde a luz passa quando são
05:42 e eu ainda não dormi

não posso deixar de ser inte-
-ira e acalmar essa chuva e te
convidar pra entrar em mim
se você não faz o esforço de sair
de casa no meio do temporal.

Não é uma história em que eu, particularmente, tenha visto tanta graça assim, mas acho que isso varia

Não lembro quando a minha primeira crise de ansiedade aconteceu e foi devidamente classificada como o que de fato era – uma crise. Nesses quase vinte anos de idade, tenho contados alguns momentos em que o pânico era tão grande que eu não sabia mais o que fazer comigo mesma, com o meu corpo; os casos corriqueiros, entretanto, se misturam e se amontoam num bolo de medos e inseguranças ao qual não tenho completo acesso, simplesmente porque a minha mente, talvez numa tentativa de autoproteção, bloqueia as memórias. Sei que nunca fui boa lidando com o que é novo – lembro de chorar na escola durante semanas antes de me habituar; de ficar modificando os meus gostos e ficar literalmente pesquisando sobre assuntos diferentes para tentar me enturmar no primeiro grupo que me aceitasse; de escrever sobre não pertencer mesmo quando era “nova demais” para entender o que é que significa, afinal, fazer parte de algo –, só não consigo apontar para uma data no calendário e dizer: foi aqui que começou.

Existe um buraco nas minhas memórias que eu não sei como é que começou a ser criado. Há uma linha turva entre os anos de início e fim – algo entre 2011 e 2013 –, mas os fatos crus e os sentimentos desencadeados por eles são uma massa difícil de penetrar e desenvolver como uma linha reta marcada por datas exatas. Durante a maior parte do tempo, quando tento pensar sobre tudo, é como se eu não estivesse realmente ali, como se todos esses dias somados fossem invenções fracas da minha imaginação. Eles não foram o princípio de nada, de modo que não acho certo tentar justificar todos os meus problemas com os acontecimentos dessa época; eu já era quebrada antes, e continuei quebrada depois. A grande questão com esse período – e o que faz com que haja, afinal, um “antes” e um “depois” – é que ele foi o ponto mais baixo. Então, se eu fosse uma função afim, eu teria o formato de um sorriso, e o ponto que tangencia o eixo X seria o que eu normalmente chamo de “uma fase meio barra pesada” quando preciso citá-la por algum motivo.

Craig Gilner tem um momento parecido – a diferença entre nós dois é que ele sabe quando as crises começam e por qual motivo. Ele é uma função bem mais simples de acompanhar, porque só um dos lados tende ao infinito. Quando passa na escola preparatória para a qual estudou tanto – para a qual passou meses se esforçando –, sua vida atinge o ponto máximo de felicidade, mas é a partir desse instante que tudo desanda. Como se, uma vez atingido esse ápice, não fosse possível sentir nenhum tipo de excitação absoluta e plena nunca mais; dali pra frente, tinha que ser ladeira a baixo, porque esse seria, parece, o único caminho possível. Então começam as crises, que pioram gradualmente até crescerem e engolirem o senso de realidade de Craig. E aí ele um dia decide se matar, só que não se mata; em vez disso, se interna numa clínica psiquiátrica por cinco dias.

Essa é a sinopse mais básica do livro Uma História Meio Que Engraçada (2006), do autor Ned Vizzini (que, por sua vez, cometeu suicídio em 2013 – informação que considero absolutamente relevante diante do tema principal do livro). Durante a maior parte das 292 páginas que estruturam a obra, nós estamos dentro da cabeça do protagonista, um adolescente de quinze anos recém-aceito no ensino médio, entendendo como se estruturou a doença que, mais tarde, levaria até a depressão e a quase-tentativa de morte. O que temos é uma explicação e um questionamento – a rotina de um jovem ao longo dos anos, os seus medos e as suas impressões, e, mais importante, os seus ataques ansiosos e depressivos. E depois a internação.

Não vou ousar dizer que entendo de depressão quando não fui, jamais, clinicamente diagnosticada com a doença. Durante os poucos meses em que frequentei uma psicóloga, evitei falar sobre a época em que estive realmente mal (por achar tudo meio infantil demais) e nós nos limitamos aos meus problemas de ansiedade e autoestima. Não tocamos em pontos muito sensíveis, eu nunca disse que tinha considerado suicídio, nós não quebramos nenhum limite pessoal. Mas eu aprendi a entender o que estava acontecendo, e, conforme o tempo passou e as crises pioraram, e começaram os vômitos e as dores no estômago e a falta de controle e as noites sem dormir, eu sabia o que fazer, sabia que precisava respirar fundo e controlar o meu cérebro, vem vez de deixar que ele me controlasse e fechasse todos os meus meios de fuga de mim. Então não vou falar sobre depressão – mas vou (preciso) falar sobre ansiedade.

Porque o que esse livro causou em mim foi uma montanha-russa que ia da compreensão absoluta pelos sentimentos do Craig – especialmente quando ele começava com as crises, visto que eu, minutos antes de ler os pensamentos dele, tinha seguido pelo menos caminho que ele seguiria depois – até o medo verdadeiro de me identificar demais. Quando a nossa cabeça é uma confusão de verdades, sentimentos e ideias, fica difícil entender como as coisas se conectam e se estruturam e, mais importante, se afetam; até onde um fato é consequência do outro; onde a mudança da felicidade para a tristeza ocorre. E então Craig estava falando sobre tudo aquilo – sobre o que ele sentia que precisava fazer, e sobre tudo o que aconteceria caso ele não desse conta – e eu não podia fazer nada além de concordar e depois me perguntar o quão problemático é não discutir com um personagem adolescente depressivo cinco anos mais novo que eu.

Durante as primeiras páginas do livro, tudo o que ecoava na minha mente era o fato de que Ned Vizzini cometera suicídio. Eu já conhecia a história há muito tempo – bem antes de 2013 –, já havia visto o filme baseado nela, colecionava quotes de uma obra que, até recentemente, nem existia na minha língua, no meu país. Durante a minha fase barra pesada, quando Ned provavelmente também não estava na sua melhor época, a ideia de que alguém de 15 anos tinha se internado e “se curado” me parecia se não poeticamente agradável, pelo menos muito útil. Eu obviamente nunca faria o mesmo, mas eu gostava de pensar que não era a única que de vez em quando não queria acordar no dia seguinte. Quando me referia ao livro, dizia que era a melhor história que eu nunca tinha lido. O impacto era real em mim – e eu nem sabia qual ele seria de verdade quando meus olhos enfim lessem as palavras que o formavam. Então, no dia em que isso finalmente aconteceu, minha mente só conseguia pensar em como alguém que me afetava tanto (e há tanto tempo) poderia não ter suportado o peso que é existir.

Depois que a conexão com o Craig assumiu um nível sério, ficou mais fácil atravessar os capítulos e as crises, porque era como ler a mim mesma. Pesado, é claro, e ainda um pouco desconfortável, mas ao mesmo tempo muito menos solitário do que costuma ser escrever num caderno que nunca abro e releio. Aquelas pessoas não existem, eu sei – pelo menos não como estão ali. Mas eu existo, e eu me vejo nelas, e, às vezes, isso basta para acalmar a sensação de não-pertencimento. Talvez aquele autor não saiba que eu estou aqui, mas, de qualquer forma, ele acabou de escrever sobre mim. Então eu continuei lendo, cada vez mais imersa, insuportavelmente imersa, e aí o livro acabou.

A parte interessante é que não existe realmente um final. Dentro da clínica, Craig é uma versão melhor de si mesmo, uma figura mais completa e disponível e correta. Ele faz o que tem que fazer, sem recaídas, sem o peso do mundo real. E todas as vezes que essa bolha de vida é penetrada por alguma responsabilidade, ele pode bater o telefone ou se esconder no quarto ou jogar cartas e não necessariamente lidar com tudo aquilo. Mas então ele precisa ir embora, porque o mundo continua girando e ele está bem e estável e não pode ficar ali pra sempre, e é uma decisão dele continuar desse jeito. É uma opção, ele diz, se deixar ser afetado negativamente e atingir o fundo do poço e considerar suicídio novamente. Às vezes, me permito pensar, essa pode parecer ser a única opção. Mas segue sendo uma escolha.

Quando ele está prestes a sair, ele pensa em todas essas coisas que ele quer fazer e toda essa vida que existe lá fora e pode ser aproveitada. É como uma recuperação rápida da onda de tristeza absoluta que invade e derruba; é o enxergar o mundo novamente como uma possibilidade de dar certo antes de dar errado. O que inspira, é claro, mas também desespera, porque a verdade – pelo menos para mim (e, então, para ele) – é que os problemas continuam ali. Ninguém está livre da ansiedade. Ninguém está livre da depressão. A gente só aprende a conviver com elas da maneira que pode, acredito, mesmo quando parece difícil demais. A gente faz o que dá pra fazer.

Já faz muito tempo desde o período em que a minha mente bloqueou os sentimentos, mas falar sobre ele e revivê-lo ainda parece impossível, e é claro que as crises ansiosas só pioraram conforme os anos continuaram passando. Eu ainda sou terrível começando qualquer coisa, e ainda choro e travo e tenho crises de pânico e escolho não participar das atividades porque sei que elas talvez me coloquem em uma posição difícil demais. Mas o que essa época me ensinou, e o que eu tento lembrar com certa frequência, e o que o livro do Ned me fez perceber novamente, é que, durante algum tempo, eu estou bem, e existe um resto enorme de vida aqui fora. E quando eu não estiver bem, é nisso que preciso focar: no tanto de coisas que ainda estão aqui.

Eu diria que é fácil perder o controle, mas a verdade é que é difícil. Porque às vezes não sobra nada onde se segurar, nada que valha a pena continuar fazendo. Às vezes tudo o que resta é o travesseiro e o corpo doendo e lágrimas e um gosto amargo na boca, e isso não é um quadro divertido do qual a gente possa partir. É um movimento de força absurdo sair dessa posição e continuar fazendo tudo aquilo que devemos fazer, viver e etc. Quando em crise, quero saber por que não posso simplesmente ficar bem, trabalhar o meu cérebro para dormir e comer e aceitar as situações conforme elas vierem, e não oito meses antes delas virem de fato. Só que o ponto é que não existe um método que me faça parar de ter as crises; tudo o que posso aprender é como lidar com elas. Como Craig ouve do seu médico certa vez: a vida não se cura; se administra. Parece um clichê gasto, e talvez seja, mas é também um ponto de partida – uma certeza vã de que, em algum momento, eu vou conseguir controlar aquilo tudo e começar de novo. E é definitivamente melhor do que nada.