Passageiro #4

substantivo masculino: pessoa que usa um meio de transporte.
adjetivo: que passa; transitório; efêmero.

são quase oito e o ônibus demorou mais que o normal pra passar. entre os dois bancos próximos ao motorista e o vidro que separa o corredor da catraca, encosto as costas e encaro a janela, o céu escuro, as luzes dos prédios e as árvores amontoadas da praça da bandeira logo ali na frente. a bolsa pesa, mas recuso ajuda quando a senhora sentada à minha frente se oferece para segurá-la — ela carrega três sacolas nas pernas finas e provavelmente está bem mais casada que eu.

você entra no ponto antes do ponto errado, onde tudo é escuro e assustador. duas mulheres na sua frente, um cara atrás, todo mundo sobe as escadas de cabeça abaixada e passa o cartão no leitor digital. vejo seus cachos de cor indefinida — castanhos na calçada, meio loiros sobre a luz artificial do ônibus — e os seus headphones brancos e a sua camisa cinza. você olha pra frente. atravessa as pessoas amontoadas com a mochila na mão. para num canto, segura o ferro amarelado no alto. reparo nos seus dedos, mas a posição e todas as outras cabeças não me permitem enxergar nada direito. volto para a minha janela.

quando saímos da ponte e um grupo enorme de pessoas desce no primeiro ponto, procuro você com o olhar como quem na verdade só quer encontrar um assento vago. o ônibus continua cheio e você continua parado ali: jeans azul, all star, cachos. mãos firmes. a mochila entre as pernas. um relógio com a pulseira marrom. o braço estendido deixando evidente o músculo. você olha, mas desvia. não escuto os fones de ouvido.

consigo sentar pouco tempo depois e paro de tentar te encontrar pelo reflexo do vidro. você também senta. me concentro da música, exatamente como você faz — lembro do seu balançar de cabeça enquanto ainda estávamos de pé, perdidos entre tanta gente. esqueço. meu ponto chega. antes de descer, uma última olhada em volta. você está dormindo, abraçado com a mochila, ainda de fones. vejo a luz nos teus cachos e imagino como seria enfiar os dedos naquela bagunça. já são nove horas quando piso na calçada.

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